sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ÀS URNAS, GONÇALENSES!

Ele entendeu o zeitgeist gonçalense


Querido leitor e leitora deste blog. No dia sete de outubro do Ano de Nosso Senhor de 2012 voltaremos às urnas para eleger o futuro mandatário desta cidade e seus 27 parlamentares.

Novamente esta freguesia do beato boêmio não mereceu a devida atenção da mídia nativa e muito menos da capital da província. Fomos solenemente ignorados nos levantamentos eleitorais tradicionalmente produzidos nesta época pelos institutos de pesquisa a pedido das empresas de comunicação, o que nos deixa sem parâmetros objetivos para analisarmos "frame-a-frame" o pleito e as tendências de voto do eleitorado.

Portanto, abnegado leitor, tentarei fazer um levantamento político-partidário das três principais alianças em disputa formadas na cidade e que, em minha humilde visão, têm chances de vitória. São elas: Konder/Miguel, Graça/Rafael do Gordo e Mulim/Valviesse.

Falar da candidatura Konder é ter que falar necessariamente no governo da atual prefeita Aparecida Panisset, já que o candidato representa, grosso modo, a continuidade de um modelo de gestão posto à prova desde 2005, do qual passa por um referendo popular em 2008, quando os eleitores reconduziram a prefeita ao cargo por mais quatro anos ainda no primeiro turno com 56% dos votos válidos naquela ocasião.

Assim, peço a você fazer uma breve digressão sobre o que foi este governo que sempre teve em Adolfo Konder uma das principais figuras que o compuseram desde o primeiro dia daquele janeiro de 2005, fazendo com que muitos analistas políticos vestissem o pijama mais cedo sobre um colchão duro e errático de suas análises.


Em 2004, ano da eleição que alçou Aparecida Panisset aos píncaros do poder político em São Gonçalo, a cidade passava por uma tenebrosa crise econômica e administrativa devido ao desastroso governo Henry Charles. O prefeito, conhecido pela alcunha de Dr. Charles, foi uma tragédia absoluta e insofismável, tanto na parte política (marcada por escândalos na Câmara de Vereadores), quanto na área administrativa, ressalvando-se aí, a digna passagem do professor Helter Barcelos pela Secretaria de Educação, um oásis em meio ao colapso gerencial de todo o governo.

Charles, então no PMDB, que quatro anos antes batera Edson Ezequiel de Matos - que fizera também um governo incongruente e confuso e que tentava a reeleição naquele ano -, não conseguiu fazer as composições políticas imprescindíveis na sociedade e na Câmara para governar, já que o legislativo tinha em sua maioria correligionários do derrotado Edson Ezequiel e que se mantiveram na oposição, deixando para o prefeito eleito margem pequena de negociação e de barganha agravada pela profunda crise e recessão econômicas que o país e a cidade atravessavam.

Para piorar o que já estava ruim para o lado de Charles, em 2003, véspera das eleições municipais, o grupo político dos Matos desembarca no PMDB pelas mãos da família Garotinho, praticamente empurrando para fora da legenda o inábil e azarado prefeito. Isolado, Charles ingressa no PTB e procura o PT, que recém elegera o presidente Lula, para construir uma terceira frente política visando a sustentação ao seu já cambaleante, e quase moribundo, governo. Esse movimento político também visava construir uma chapa competitiva ao que já se desenhava na esfera municipal, obedecendo a lógica de polarização entre Garotinho (PMDB) e Cesar Maia (DEM, antigo PFL) na esfera estadual, maiores estrelas de então da política fluminense.

Os níveis de governança do prefeito só se deterioravam a cada dia. Denúncias de corrupção pipocavam em todos os lugares e a imprensa local tratava de amplificá-las num sadismo que transcendia, e muito, a sua função de informar. Porém, o sentimento generalizado da sociedade era de decepção. Henry Charles fora eleito como símbolo da mudança e do cansaço da população com a política e a administração praticadas até o ano 2000. Esse foi o real significado do triunfo do slogan "Chamem o Doutor" que, no imaginário popular,  traria cuidado, carinho e a "cura" para todas aquelas mazelas que recaiam sobre a cidade.

Os gonçalenses em 2000 sabiam o que queriam e o que não queriam. Queriam mudança, e não queriam os Matos. Em 2004 essa lógica prevaleceria com a eleição espetacular da deputada estadual Aparecida Panisset ainda no primeiro turno, desancando, dessa vez, Graça Matos, esposa do ex-prefeito Edson Ezequiel.

Em 2004, as condições concretas para a vitória de Aparecida Panisset (ainda pelo extinto PFL) já estavam dadas. Mas ninguém (eu disse NINGUÉM) apostava na forma espetacular como ela se deu. Essas eleições foram o divisor de águas, o início de um novo marco histórico e político na cidade. Primeiro, foi a consagração do marketing político-eleitoral profissional em São Gonçalo, bem ao feitio do grupo do prefeito do Rio, Cesar Maia, grande estudioso da matéria e padrinho da candidatura vitoriosa. Segundo, a entrada definitiva dos evangélicos como sujeitos políticos de São Gonçalo, grandes e organizados protagonistas na vitória de Panisset.

As lideranças evangélicas iriam impor uma nova correlação de forças políticas, sobretudo nos grotões da cidade, desafiando o poder de muitos vereadores e lideranças assemelhadas que operavam de acordo à lógica da partilha territorial segundo suas áreas de influência política e eleitoral. Aliás, fato este que criou alguns exageros, como a inacreditável Subsecretaria para Assuntos Religiosos e Comunitários, que seria logo extinta depois de denunciada a sua excrescência no histórico requerimento, enviado ao pitoresco órgão da prefeitura, pelo professor gonçalense Edson Amaro, que pedia providências da subsecretaria junto ao Papa (sic) no quiprocó envolvendo a canonização de nosso padroeiro, São Gonçalo do Amarante...

O pensador italiano Nicolau Maquiavel, em uma de sua máximas políticas, afirma que o governante, para se manter no poder, deve ter, por um lado, a virtú, ou conhecimento de causa; e, por outro, a fortuna, ou sorte de viver um momento histórico favorável ou propício à consolidação e manutenção desse mesmo poder. A prefeita eleita, Aparecida Panisset, conseguiu, de uma certa forma, reunir estes dois atributos tão caros a Maquiavel numa São Gonçalo caótica e com grande fadiga política após quatro anos de incertezas.

A equipe formada pelo governo tinha uma forte presença, em seu secretariado, de nomes indicados pelo prefeito Cesar Maia, o que gerou certo desconforto em alguns setores da sociedade política gonçalense que os acusavam de "forasteiros cariocas", de não terem vínculo com a cidade. Os casos mais emblemáticos residiam nos nomes do secretário de Fazenda, Antônio Moreno, o secretário de Governo, Alberto Ahmed, e no hoje candidato a prefeito Adolfo Konder, que ocupava a Chefia de Gabinete da prefeita à época. As vozes mais estridentes contra os cariocas vinham através do jornalista Rujany Martins, dono do extinto Nosso Jornal, que abria suas páginas às críticas contra o secretariado e, por extensão, ao governo.

A condição falimentar do município exigia medidas duras e urgentes, principalmente na parte financeiro-administrativa. Se o novo governo não tinha maioria na Câmara, também não tinha forte oposição, que se desfacelara com a derrota de Graça Matos, ao mesmo tempo em que se apresentava atordoada e perplexa, num primeiro momento, para, logo em seguida, se movimentar e ganhar posições políticas a partir de uma recomposição de interesses dentro de um quadro político novo e até pouco tempo improvável. Quadro este que exigia, acima de tudo, austeridade fiscal e a renegociação da dívida pública que estava fora de controle num ambiente econômico ainda recessivo. Os vereadores em sua maioria resolvem - pressionados pelas circunstâncias - aderir ao projeto de poder do governo Aparecida que se iniciara. Outros, preferem esperar.

Ainda em 2005 a prefeita Panisset se aproxima dos municipalistas nomeando Eugênio Abreu para a Secretaria de Educação, que também acumularia a presidência da FASG, autarquia de cultura ligada à administração. Abreu era ligado ao Grupo Lavoura, adversário histórico dos Matos na cidade. O secretário passava a comandar, nada mais, nada menos, que a metade do funcionalismo municipal, além de controlar todas as nomeações e as verbas para a área. Também acumulou a presidência do Conselho Municipal de Educação. Esse ato da prefeita anularia, de uma vez por todas, o discurso dos municipalistas contra os forasteiros dando a Moreno e a Konder a legitimidade política para atuarem em favor do governo. Alberto Ahmed, muito ligado a Cesar Maia, deixaria o governo em 2006.

Antonio Moreno, secretário de Fazenda, trabalhou no governo Cesar Maia e era um grande conhecedor de finanças públicas. Ele ajudara o prefeito na construção da engenharia financeira que deu aos cofres cariocas um dos maiores ativos de investimento do Brasil. Pegou as contas públicas gonçalenses em frangalhos e impôs um rigoroso ajuste fiscal de reequilíbrio que no início do governo Panisset mal davam para pagar o funcionalismo. Teve que rever contratos com fornecedores e renegociar a rolagem da dívida pública com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Ou seja, ajustes desta envergadura só seriam realizáveis num ambiente político razoavelmente pacificado e civilizado, tanto domesticamente, como nas esferas estadual e federal.

Eis que a fortuna novamente sorri à prefeita. Em 2006, um ano especialmente nervoso politicamente, dois eventos mudariam totalmente o quadro político gonçalense: o Comperj e o aprofundamento das políticas sociais do governo Lula. O anúncio da construção do pólo petroquímico pela Petrobras alçou, de uma hora para outra, a cidade de São Gonçalo para o centro das discussões em torno do desenvolvimento econômico do estado do Rio e do Brasil. Não só isso. Deu à prefeita Aparecida Panisset a chance de exercer um protagonismo político que há muito não se via desde os tempos áureos da industrialização gonçalense nos anos de 1940 e 1950. De modo hábil e muito perspicaz, Panisset coloca de lado questões partidárias (ela era do PFL) e abre um diálogo direto com Brasília e principalmente com o presidente Lula.

O chamego entre os dois chega a tal ponto e a tal simbolismo, que o anúncio oficial de construção do Comperj se dá em terras gonçalenses, mais precisamente no Clube Mauá. A aproximação entre o presidente e a prefeita a levaria para a base aliada. Negada inicialmente pelo PT municipal, Panisset encontraria abrigo no PDT, ironicamente o seu partido de origem. Esta afinação política traria a atenção do Ministério do Desenvolvimento Social através do Bolsa Família na cidade e outros projetos de assistência técnica em diversas outras áreas, principalmente na formação profissional, com a implantação da escola técnica federal (CEFET) em Neves. Cabe registrar o discurso do presidente na ocasião quando afirma que "São Gonçalo não será mais o patinho feio do Rio de Janeiro". Estava dada a senha da parceria que se formava entre Aparecida e Lula.

Adolfo Konder, que antes se encarregara da articulação política no início do governo, é chamado para administrar esse capital social e político advindo da habilidade e do senso de oportunidade da prefeita junto ao presidente Lula. À frente da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS), Konder cria uma estrutura abrangente e inédita de assistência que cobre todo o município e que incluiu diversas outras sub-secretarias. Com as contas sob controle, o município é autorizado a fazer diversos convênios com o governo federal, fato este que dá imensa visibilidade às ações do secretário e que alivia a pressão política dos vereadores sobre o governo.

As eleições majoritárias se aproximavam, e isto criou um dilema político para a prefeita que era do PFL, partido de cruenta oposição ao governo federal. O PMDB nacional já havia entrado para a base de sustentação do governo Lula e o blindou no Congresso contra o escândalo do chamado "mensalão". No Rio de Janeiro o candidato a governador seria o senador Sergio Cabral, inimigo de Anthony Garotinho, que anos antes fez desembarcar no partido o seu grupo político no qual estavam os Matos. A prefeita fez uma jogada de alto risco, guiada, sobretudo, por sua intuição. Mas que, se desse certo, ampliaria a sua parceria com o governo federal além de anular em nível municipal a ameaça dos Matos em sua reeleição em 2008, caso Cabral fosse eleito governador.

E, como toda escolha é uma renúncia, o senso de sobrevivência falou mais alto na prefeita. Naquelas eleições de 2006, Aparecida Panisset dedicou-se, no primeiro turno, quase que exclusivamente a eleição de seu irmão, Márcio, à Assembleia Legislativa. Mas, no segundo turno, entregou-se de corpo e alma à reeleição de Lula contra Geraldo Alckimim, do PSDB, à contragosto do cacicado do PFL, aí incluindo o seu antigo padrinho Cesar Maia. O resultado das urnas não poderia ser melhor para a prefeita que só tinha um caminho a ser feito: migrar para a base aliada. Assim, depois de meses de negociação com o diretório do PT municipal, e após sua recusa em aceitá-la nas fileiras do partido, Aparecida Panisset se filia ao PDT em 20 de agosto de 2007, também no Clube Mauá.

A economia brasileira dava sinais claros de melhora, e o Comperj se mostrava um evento auspicioso para toda a região metropolitana e, é claro, para São Gonçalo. Graças aos repasses do governo federal e aos novos investimentos na cidade, a prefeitura passa a aprofundar as intervenções urbanísticas que resultaram em recapeamento de ruas e restauração dos espaços públicos, como as praças. A cidade, em pouco tempo, se reencontra com os investimentos que possibilitam um volume de obras há muito tempo não visto pelos munícipes. Por um outro lado, todas essas transformações criaram uma demanda por técnicos que a prefeitura não dispunha, o que impediu a cidade aproveitar outros mais e tantos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), por exemplo. O caso mais gritante foi o retorno de R$ 85 milhões à União que seriam destinados à canalização dos rios em São Gonçalo. O caso viria à tona, tragicamente, após as enchentes que castigaram São Gonçalo em 2010.

Foi neste contexto, portanto, que Aparecida Panisset vence (de novo) a peleja eleitoral contra a sua maior adversária, Graça Matos, em 2008, com 56% do eleitorado, ainda no primeiro turno. Registre-se, também, que a disputa contou com o voo solo do Partido dos Trabalhadores, tendo à frente um candidato enxertado, o deputado estadual Altineu Cortes (e o deputado federal Neilton Mulim do PR como vice), depois do longínquo ano de 1988, último sopro de uma candidatura própria do PT. O lançamento da candidatura Altineu Cortes se deu à contragosto de um de seus principais dirigentes, Luis Rodrigues Paiva, que fazia parte do alto secretariado do governo Panisset. Paiva, nessa ocasião, foi obrigado a se licenciar do partido para não ser expulso. Esse fato demonstra que parcela importante do PT já defendia a aliança com o PDT. Mas a estratégia do Partido naquele ano se mostrou valiosa para o fortalecimento da legenda, que obteve uma votação exuberante, possibilitando a conquista de duas cadeiras no legislativo, um fato inédito até então.

Sem Garotinho, que ingressa no PR em 2007, e com apoio tímido do governador de mesmo partido, (PMDB) Sergio Cabral, Graça Matos não tinha o que fazer senão resignar-se, e admitir a hegemonia política da "Família Panisset" em São Gonçalo. O único vestígio de oposição objetiva ao governo se daria na Câmara de Vereadores pela bancada do PT, na figura dos vereadores Marlos Costa e Miguel Moraes. Em 2010, porém, o PT fecha acordo com Aparecida e passa a integrar a base do governo depois de muitas idas e vindas e de um flerte que durou quatro anos, desde a vinda do presidente Lula à cidade em 2006. O namoro viria a se tornar casamento em 2012, com as candidaturas de Adolfo Konder a prefeito e a de Miguel Moraes como vice. Com nomes e momentos diferentes, mas uma reedição da dobradinha vitoriosa PDT/PT dos anos de 1990.

O segundo mandato da prefeita Aparecida Panisset será, ao mesmo tempo, uma continuidade e um aprofundamento do primeiro. Se neste se destacou o secretário de Fazenda Antonio Moreno, agora o protagonismo recairá no secretário Adolfo Konder, o principal interlocutor do governo com o empresariado e com as esferas dos governos federal e estadual, já dando claros sinais de sua escolha para substituir a mandatária da cidade nas eleições de 2012.

Anos de estagnação fizeram o poder público gonçalense desaprender a administrar o desenvolvimento. Os níveis de investimento públicos e privados se avolumavam desde 2007. O primeiro passo havia sido dado com o saneamento das contas públicas municipais que permitiu a rolagem da dívida, novos empréstimos para investimentos e convênios com as autarquias públicas ou com a administração direta dos esferas estadual e federal. Um exemplo disso foi a adesão do município ao programa Minha Casa, Minha Vida e aos PAC´s da Mobilidade e do Saneamento. Este último implantado na região do Grande Jardim Catarina, que compreende o bairro homônimo, o Salgueiro, Itaoca e Trindade. Também foi possível fazer um convênio com o DER fluminense no valor de R$ 80 milhões em obras de recapeamento da malha viária da cidade.

Os estaleiros do Porto Velho e do Gradim renasceram e cresceram pelas mãos das empresas São Miguel e Cassinú. A construção civil abriu novas fundações de forma diversificada tanto em natureza como geograficamente. Hoje é possível observar novas colunas de concreto em todos os distritos de São Gonçalo. Os emplacamentos de veículos na cidade saltaram, em 2002, de 90 mil para 205 mil em 2011. O investimento em novos empreendimentos comerciais tirou do papel o Shopping Boulevard, enquanto constrói outros dois em Alcântara, e o Hipermercado Guanabara, também em Alcântara. Essa enormidade de investimentos na cidade obrigou o poder público gonçalense a investir na modernização da administração, exigindo técnicos para o seu gerenciamento a médio e a longo prazos.

A prefeitura reconhece tal necessidade quando a partir de 2009 é inúmeras vezes instada pelo legislativo a debater essas demandas, sempre na figura de um parlamentar, Marlos Costa (PT), em seu primeiro mandato. O Ministério Público, provocado pelo parlamentar, também obriga a prefeitura a oferecer concurso público para a ocupação de quadros técnicos em postos-chaves da administração. Esse foi um momento onde um outro ator importante surge, a sociedade civil organizada, representada pelo primeiro sindicato dos servidores da administração pública gonçalense, o SINDSPEF. Pela primeira vez, depois de décadas, a prefeitura volta as atenções para a necessidade de valorização do seu corpo burocrático, e inicia a elaboração do Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS) do funcionalismo municipal que será finalizado em 2011 com aprovação unânime da Câmara de Vereadores. É, também, a primeira vez que a prefeitura mexe no vespeiro dos comissionados políticos da administração direta propondo substituí-los por funcionários de carreira concursados.

Mas no meio do caminho tinha uma pedra. Teve a eleição em 2010. O copo, quando está pela metade, é meio vazio, ou meio cheio? A prefeita Aparecida lançou o seu irmão, Márcio Panisset, e o seu escolhido, Konder, para deputados estadual e federal, respectivamente. Ganhou com o primeiro, perdeu com o segundo. Até aí, tudo bem. Eleição se perde e se ganha. Mas no anexo da prefeitura, Eduardo Gordo, já como presidente da Câmara, elegera o seu filho, Rafael, deputado estadual pelo PSB. E outro vereador, José Nanci (PPS), também se elegera. Eduardo Gordo, que é de um partido inexpressivo, o PT do B, tem uma forte ligação com Jorge Picciani (PMDB) que, por sua vez, é ligado ao casal Matos, ambos com mandato e à espreita do poder na cidade, mesmo após duas derrotas. José Nanci, influenciado pela obsessão de sua família de ter um prefeito, poderia pleitear esse direito, já que se elegera como deputado estadual.

Desta feita, e mais do que nunca, a prefeita deveria mostra virtú, já que a fortuna não a favorecera. O ano de 2010, de eleições para presidente e governador, fora as proporcionais, colocaram na baila eleitoral Lindbergh Farias do PT, candidato a senador, assim como Crivella e Picciani. Os dois primeiros se elegeram, e Picciani ficou sem mandato, deveras chateado com a prefeita, que preferiu cuidar do futuro com o PT, o PRB e com o PMDB de Sergio Cabral.

O palco político é montado visando as eleições de 2012, e no centro do tablado três atores peso-pesados se movimentariam para conquistar o público: Aparecida Panisset, Jorge Picciani e Anthony Garotinho.É importante citar que o PT como um todo também pisou no mesmo tablado, mas sempre como coadjuvante neste teatro que tinha um roteiro mais ou menos definido: a candidatura Konder pelo PDT, a de Neilton Mulim pelo PR, e uma candidatura da aliança montada por Picciani, que tinha o PPS (José Nanci), o PSB (Rafael do Gordo) e o PMDB (os Matos). O mesmo grupo conseguiu trazer o vereador Dilson Drummond (PDT, suplente de deputado federal), que se rebelara contra a escolha de Adolfo Konder pela prefeita, pois o mesmo sonhara com a indicação pelo seu partido.

O PT, às vezes fera, às vezes donzela, seguiu a sua tradição de muito debate interno em torno de duas teses principais: candidatura própria ou aliança? O diretório municipal estava profundamente dividido desde 2010 quando a aliança com o PDT de Panisset foi aprovada, o que sinalizava o PT ceder a cabeça de chapa em 2012 para o candidato da prefeita. No início os dois representantes do partido na Câmara, Miguel Moraes e o novato Marlos Costa, pleiteavam legitimamente os seus nomes para concorrer pelo PT em 2012. Porém, o diretório estadual barrou as pretensões dos dois edis sob forte influência do senador, e pré-candidato ao governo do estado, Lindbergh Farias, que impôs o nome alienígena do deputado Gilberto Palmares como candidato da suposta frente a ser montada pelo PT nas eleições.

Um provável consenso em torno da candidatura própria perdeu força no diretório gonçalense, e os vereadores do partido passam a apoiar a tese da aliança com o PDT que vinha sendo articulada pelo secretário Luis Rodrigues Paiva e endossada pelo presidente do partido Wanderlei Dias. Depois de muitos embates, discussões e plenárias, a tese da aliança sagra-se vencedora com uma margem muito apertada de votos. O PT gonçalense sai desgastado desse episódio, mas a decisão é finalmente homologada.

A candidatura Mulim sempre foi dada como certa. Em entrevista ao jornal O Fluminense em 2008 ele já afirmara esse desejo quando concorria a vice-prefeito com Altineu Cortes. A ocasião serviria como "termômetro" da disputa em 2012. A chapa montada pelo PR aposta na contra-hegemonia de centro-direita, reunindo o DEM, o PSDB e o PTB. O padrinho desta candidatura é Garotinho, que é candidatíssimo a cargo de governador em 2014 e o maior adversário do PMDB de Cabral e Picciani.

O bloco liderado pelo PMDB desde o início fez jogo de cena para escolher o nome da cabeça de chapa. De um lado, um desgastado e estigmatizado Edson Ezequiel, ex-prefeito, e sua esposa e deputada Graça Matos, que vem de duas derrotas consecutivas para a atual prefeita. De outro, o deputado pelo pequeno PPS, José Nanci e o jovem Rafael do Gordo, do PSB, filho do vereador e presidente da Câmara Eduardo Gordo, que é ligado umbilicalmente ao ex-deputado Picciani.O bloco montou uma estratégia interessante em cima da especulação da escolha de um nome para encabeçar a chapa. Esse suspense rendeu grande destaque na imprensa. Mas, depois de alguns meses, a escolha recairia sobre Graça Matos. O apoio firmado pelo governador à sua candidatura foi fundamental para que ela aceitasse esta nova empreitada, diferentemente do que ocorreu nas eleições passadas.

Finalmente, a candidatura Konder. O secretário, que teve papel de destaque desde o início do governo Panisset, sempre foi olhado com desconfiança pelos seus correligionários. Porém, a má vontade cedeu, se não ao seu carisma, à constatação de sua competência técnica, ao livre trânsito do secretário entre o empresariado (investimentos) e aos diversos níveis dos governos federal e estadual (convênios, projetos e financiamentos) e ao diálogo aberto com a Câmara de Vereadores. A prefeita acredita que o seu sucessor deve fazer uma gestão mais voltada para o desenvolvimento e para o gerenciamento dos recursos humanos da prefeitura. Áreas como saúde e educação têm a sua situação agravada sobretudo à incapacidade de maiores investimentos devido a arrecadação que ainda é muito baixa para o tamanho de sua população. A prefeitura para gerenciar estas duas grandes áreas segue dependente dos repasses do governo federal, seja através do SUS, FUNDEB ou do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

E foi Adolfo Konder quem convenceu a cúpula do governo a se aproximar e a fortalecer o consórcio político do Comperj, o Conleste, que reúne as cidades do entorno impactado pela construção da refinaria em Itaboraí.  O fortalecimento do Conleste é fundamental para o planejamento regional sustentável, seja nas áreas econômica, ambiental, social e política, para fazer frente aos enormes desafios que se avizinham.

...

Bom, meu paciente leitor. Acredito que fiz uma explanação suficiente para embasar o meu voto: Adolfo Konder. Também acredito que todos nós devemos nos posicionar em relação à cidade. Política é cercada de paixões, mas nós devemos fazer nossas escolhas, de preferência expondo as suas razões.

Vejo que essa é a hora de pensarmos racionalmente esta cidade cheia de problemas. Vivemos um período político pacificado. Sei que muitos se ressentem da falta de carisma do candidato. É compreensível. Mas estou convicto de que ele entendeu o zeitgeist, o espírito do tempo, para conduzir essa cidade a um nível de desenvolvimento continuado. Bagagem ele tem pra isso.


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