(...)
_ É com tudo e com todos. Sabe, as coisas comigo dão tão errado, que duvido realmente existir - Depois de uma pesada, dramática e terrível pausa, continuou: Uma vez li - não sei onde - que tudo que existe é, ao mesmo tempo, potência e resistência porque é força, e, no entanto, cá estou em sua casa bebendo esta água doce - filosofou a moça com a reflexão dos derrotados.
Juliette sempre soube da dureza da vida; agora, o parênteses necessário: creio que o leitor possa ter uma compreensão coberta pela áurea da pieguice a respeito de concepção e afirmação consumidas pela desesperança generalizada. Porém, diria ser a sua vida, em particular, um arroio de mequetrefe. Para ela, os seus impedimentos eram rudes e intranscendentes. A única coisa que tinha em seu favor era o intelecto, talvez -faça ver! - por herança de seu pai e de sua mãe. Peço licença, portanto, para contar-lhe um pouco da história dos seus ascendentes num brevíssimo prólogo.
Os dois conheceram-se lá pelo fim da década de ouro do Brasil. Sim, nos anos cinquenta do passado século XX. Ele, cabo da Marinha de Guerra, e ela, filha de um funcionário público de pequeno escalão do Ministério do Planejamento. Um pouco de atenção à história brasileira nos daria o cenário perfeito ao encontro do casal. Por hora, comecemos a genealogia.
O homem, pai da moça, fora batizado João Carlos; João Carlos de Ferro Lemos. Nascera em 1939 numa cidade do interior do grande Estado do Sertão. Digo numa cidade, porque mesmo ele a ignora. Sem o querer, mergulharia de cabeça no turbilhão de eventos sucessivos que culminariam no seu mais completo esquecimento como pessoa à ruazinha das Flores; em uma pseudo-cidade de subúrbio do Rio de Janeiro, ironicamente afeita à sua condição. Parou ali como sempre vivera, tal como folha vadia ao sabor dos ventos, que se desgarra, murcha e finalmente seca para desintegrar-se. Talvez para ele a sua própria vida tenha sido uma enorme pilhéria. Ainda não cansara das perguntas que fazia a si mesmo - por sua vez -, mas há muito desistira de lutar no front da vida. Tombara em meio ao combate pela existência neste mundo deveras hostil. Juliette daria, então, continuidade à causa perdida? Bem veja que é cedo para tirarmos qualquer conclusão, uma antecipação que seja é precipitada.
(...)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O SAPATO DE JULIETTE - LAUDA IV
(...)
Outros que saíam de suas casas para o trabalho tiveram as atenções voltadas para aquele trecho de rua. Os que iam à frente seguiram os seus destinos com chances sérias de terem mau jeito no pescoço. Os que haviam de passar, diminuíam os passos. Os chegados a uma ou outra paravam para acudir. - Vão, por favor, vão! - dizia a velha, percebendo a antropofagia da pueril curiosidade transeunte. De mais, ela mesma queria desvendar o mistério. Para tanto, a pegou pelo braço perguntando em sussurro:
_ Queres vir a minha casa?
_ Qual o quê, dona Mirandinha! Vou entrar e descansar um pouco - disse a moça, desvencilhando-se da velha em direção à entrada de seu esconderijo.
_ Ora, mas não vais mesmo! - reagiu, pegando em seu braço; e, nesse gesto, desvelando certos ares de convicção, imperativa. - Venha comigo, e darei a ti café com leite quente e alguns biscoitos... não! água com açúcar se quiseres. Vejo que estás mais nervosa que lesa...
Esta última frase, junto ao sorriso da velha, cativaram-na, minando sua resistência. Lá entraram enfim.
E sentaram-se as duas à mesinha de madeira logo à entrada da cozinha. Bastou uma piscadela para surgir, entre a soleira da porta de mesmo cômodo seu Clodomiro, marido de Mirandinha. A velha logo adiantou-se: - Não foi nada! - despachando o velho desleixado e modorrento.
_ E então; conta-me o que houve? dando-lha água doce.
_ Este sapa... - Juliette não conseguiu completar a frase, interrompida por Mirandinha em corte:
_ Eu já sei que estes sapatos eram os únicos que tinhas para usar; claro está. É fácil de resolver, não se preocupe. Mas resolver o problema do calçado deixará outro em aberto, não é verdade?
_ Sim - seco.
_ Pois me conte. É algo com seu pai e sua mãe?
(...)
Outros que saíam de suas casas para o trabalho tiveram as atenções voltadas para aquele trecho de rua. Os que iam à frente seguiram os seus destinos com chances sérias de terem mau jeito no pescoço. Os que haviam de passar, diminuíam os passos. Os chegados a uma ou outra paravam para acudir. - Vão, por favor, vão! - dizia a velha, percebendo a antropofagia da pueril curiosidade transeunte. De mais, ela mesma queria desvendar o mistério. Para tanto, a pegou pelo braço perguntando em sussurro:
_ Queres vir a minha casa?
_ Qual o quê, dona Mirandinha! Vou entrar e descansar um pouco - disse a moça, desvencilhando-se da velha em direção à entrada de seu esconderijo.
_ Ora, mas não vais mesmo! - reagiu, pegando em seu braço; e, nesse gesto, desvelando certos ares de convicção, imperativa. - Venha comigo, e darei a ti café com leite quente e alguns biscoitos... não! água com açúcar se quiseres. Vejo que estás mais nervosa que lesa...
Esta última frase, junto ao sorriso da velha, cativaram-na, minando sua resistência. Lá entraram enfim.
E sentaram-se as duas à mesinha de madeira logo à entrada da cozinha. Bastou uma piscadela para surgir, entre a soleira da porta de mesmo cômodo seu Clodomiro, marido de Mirandinha. A velha logo adiantou-se: - Não foi nada! - despachando o velho desleixado e modorrento.
_ E então; conta-me o que houve? dando-lha água doce.
_ Este sapa... - Juliette não conseguiu completar a frase, interrompida por Mirandinha em corte:
_ Eu já sei que estes sapatos eram os únicos que tinhas para usar; claro está. É fácil de resolver, não se preocupe. Mas resolver o problema do calçado deixará outro em aberto, não é verdade?
_ Sim - seco.
_ Pois me conte. É algo com seu pai e sua mãe?
(...)
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
O SAPATO DE JULIETTE - LAUDA III
(...)
Foi a velha claudicante a vítima eventual de sua dor. Juliette respirou fundo, contou até dez, desejou mesmo flagelar-se; tudo! para não descontar em dona Mirandinha tantos impropérios. A velha, por sua vez, fazia bem não ser com ela. Os muitos anos vividos deram-na ouvidos pacientes e compreensivos para com a juventude - especialmente com Juliette, por ela muito querida. Devo explicar que tal afeição não era em si gratuita. A moça fora morar à Rua das Flores ainda recém-nascida, enrolada com a manta que seria do seu irmão, caso este não sucumbisse aos caprichos do destino. A mãe e o pai de Juliette - que serão apresentados em boa hora - decidiram mudar-se depois do inesperado; contudo, pregam-lhes outra peça o destino quando mal superaram o terrível infanticídio: souberam de outra gravidez, esta que traria ao mundo a sua única filha Juliette.
Darei ao leitor amigo os detalhes desta história, o que nos ajudará sobremaneira entender os descaminhos da pobre moça. Por hora, acompanhemos o interessante desdobramento do diálogo interrompido pelo parágrafo acima obscuro:
_ Ora! calce outro e vá - disse a velha, certa da solução.
_ Eu não os tenho.
_ Eu não os tenho o quê? - pergunta a velha incrédula.
_ O sapato, o sapato! Eu não tenho sapato; ouviu?!! - Juliette levanta-se de súbito a girar e girar - loucamente -, fora de si:
_ Eu não tenho sapato! Eu não tenho sapato! - Gargalha de bazófia acompanha o triste saldo patético da cena as cinco e pouquinho da manhã de sexta-feira.
Eu não tenho sapatos. Eis o embuste que confunde o leitor desatento.
(...)
sábado, 14 de janeiro de 2012
O SAPATO DE JULIETTE - LAUDA II
(...)
Ainda lá estava a moça na solidão do desespero e sentimentos ruins há muito habituais à cabeça. Arrastou-se, porém, à borda do meio-fio a sentar-se. Ficou em tão funesta solidão até o ranger de uma portinhola à sua frente. Era dona Mirandinha mimando a insônia. Tão logo a viu chamou-a sem perceber-lhe o aviltamento da cena:
_ Juju, é você? É você Juju?!!
Dona Mirandinha já era vó há bastante tempo, e a artrite a perseguia. Nada que lhe tirasse a ternura. Absolutamente! Chamava-se Mirândola, mas a vizinhança tratou de alcunhá-la dona Mirandinha mesmo. Viste acima que chamara Juliette por duas vezes, e depois de um estranho silêncio perguntou em baixo tom, curiosa:
_ Que fazes aí minha filha?
_ Não é nada - respondeu sem olhá-la nos olhos; enxugando o que restava de lágrima na bochecha pálida. - Eu só estou aqui... - Não se aguentou; chorou de soluçar em tremedeira; gemia como criança pequena.
A mulher atravessa a rua do seu jeito, indo ao seu encontro. O franzir do rosto de Mirandinha - além de enrugá-lo - carregava pesada curiosidade: "O que essa menina aprontou dessa vez? Ora, mas tão cedo! Não, não... As luzes da sua casa estão apagadas; estão todos dormindo por certo". Pisava nos paralelepípedos indagando-se a fim de adivinhar a causa do inusitado em pleno alvorecer.
_ Aconteceu alguma coisa; fale comigo Juliette...
_ Aconteceu, sim! Eu não vou trabalhar hoje! Tudo por causa de uma merda de sapato!
(...)
Ainda lá estava a moça na solidão do desespero e sentimentos ruins há muito habituais à cabeça. Arrastou-se, porém, à borda do meio-fio a sentar-se. Ficou em tão funesta solidão até o ranger de uma portinhola à sua frente. Era dona Mirandinha mimando a insônia. Tão logo a viu chamou-a sem perceber-lhe o aviltamento da cena:
_ Juju, é você? É você Juju?!!
Dona Mirandinha já era vó há bastante tempo, e a artrite a perseguia. Nada que lhe tirasse a ternura. Absolutamente! Chamava-se Mirândola, mas a vizinhança tratou de alcunhá-la dona Mirandinha mesmo. Viste acima que chamara Juliette por duas vezes, e depois de um estranho silêncio perguntou em baixo tom, curiosa:
_ Que fazes aí minha filha?
_ Não é nada - respondeu sem olhá-la nos olhos; enxugando o que restava de lágrima na bochecha pálida. - Eu só estou aqui... - Não se aguentou; chorou de soluçar em tremedeira; gemia como criança pequena.
A mulher atravessa a rua do seu jeito, indo ao seu encontro. O franzir do rosto de Mirandinha - além de enrugá-lo - carregava pesada curiosidade: "O que essa menina aprontou dessa vez? Ora, mas tão cedo! Não, não... As luzes da sua casa estão apagadas; estão todos dormindo por certo". Pisava nos paralelepípedos indagando-se a fim de adivinhar a causa do inusitado em pleno alvorecer.
_ Aconteceu alguma coisa; fale comigo Juliette...
_ Aconteceu, sim! Eu não vou trabalhar hoje! Tudo por causa de uma merda de sapato!
(...)
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
O SAPATO DE JULIETTE
Juliette pôs os pés fora de sua humilde casinha à Rua das Flores. Era manhã cedo de mais um dia de trabalho num escritório de quinta da cidade. Com um suspiro de desagrado, parou à saída do portão enferrujado para fechá-lo e finalmente ir para a labuta obrigatória. Lépida, deixou a calçada de cimento liso e rachado não sem antes tropeçar no traiçoeiro meio-fio que fazia-lha o remate. Pronto! Soltara o primeiro palavrão do dia, embora o fizesse em desabafo. Não era a primeira vez que tal coisa embaraço trazia-lhe - bem o sabia ali. Desta feita, maior o estorvo. A travanca inesperada pareceu-lhe, a bem da verdade, um existencial vaticínio.
Refeito o equilíbrio do corpo, corre baixo os olhos que dariam à alma coisa bem pior portanto: a sola desgarrara-se do sapato. Ah! subiu-lhe à cabeça o sangue da raiva e do desespero. Em seguida - coitadinha - a dor pujante do abatimento moral. Era-lhe o calçado o único que não trazia-lhe vergonha nas andanças dos dias úteis.
Já entregue ao fato que a devorava os ossos e a deixava miúda e impotente, senta-se com a saia azul tergal à beira da rua de piso em pedra. Sem norte à frente, entrega, irreversivelmente, as pontas. E chora, baixinho, de cabeça baixa, antes mesmo o sol despontar-se no horizonte.
À vista primeira, parece a ti terrível acaso a pobre moça. Ei-lo que sim. Estás certo e digo: coisa assim boba do dia a dia ulula tragédia de sempre. Algo fê-la a grande dor da ruazinha de lá. Coisa maior que fatiga e cutuca a queda hedionda de alguém. Juliette, mirada pela literatura que a assiste, mesmo dirá a mim, porque ainda não sei-lo. Caso tão assim-assim delicado lembra-nos coisas de monta à vida sem pestanejo de dúvida. É deveras certo a identidade de quem sofre, ama e etecéteras - vejo que sabes. Impressionaria, por sua vez, a natureza ter feito corpo de homem e mulher desajeitado à perícia se não fosse o propósito. Ah, este propósito!
(...)
FELIZ 2012...
Amigos leitores. Sei que estiveram ansiosos por notícias deste escriba.
Pois bem.
Tenho dois desafios. Um, é digitar um projeto de romance que jazia em um canto qualquer desta loucura de vida. E, o outro, é ir com a minha Kris Bella para a aprazível cidade de Assú, no Rio Grande do Norte, para, enfim, dar cabo desta missão.
Queria a ajuda e observação dos amigos, por favor.
Começarei em outro post.
E vamo que vamo!
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
O DIFÍCIL CAMINHO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Meu antenado leitor, posto agora mais um artigo do meu grande amigo Mauricio Mendes de Oliveira.
O assunto é mídia e democratização dos meios.
Esse texto é de 2008 e da safra do glorioso Jornal Apologia.
Boa leitura.
O
DIFÍCIL CAMINHO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
O assunto é mídia e democratização dos meios.
Esse texto é de 2008 e da safra do glorioso Jornal Apologia.
Boa leitura.
O
DIFÍCIL CAMINHO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Por Mauricio Mendes de Oliveira
O artigo 5º, seção IX da
constituição federal é bem incisivo: "É livre a expressão da atividade
intelectual, artística, científica, e de comunicação, independentemente de
censura ou licença”. No entanto,
desde 2003 o governo Lula vem se utilizando da ANATEL para perseguir de forma
inclemente as rádios comunitárias, onde é apreendido todo equipamento da
emissora, como também, são ameaçados e até agredidos todo o pessoal técnico. Esses
procedimentos seriam perfeitamente naturais se partissem de quadros de partidos
conservadores, pois afinal de contas, são agrupamentos comprometidos com o
“status quo”, devendo a sua existência a defesa dos tubarões da mídia.
Mas no momento que o governo federal usa a legislação de forma distorcida,
valendo-se de argumentos mentirosos como o perigo a navegação aérea, por
exemplo, com o claro intuito de proteger as grandes redes comerciais de
comunicação, chegamos à conclusão que esse governo dito de esquerda e seus
aliados vomitaram todo o ideário de luta proferido por duas décadas.
Essa guinada de 180º pode ser explicada: As rádios comunitárias são os
veículos mais eficazes para o estabelecimento de uma “contra-mídia”, pois essas
emissoras existem para promover a cutltura, educação, o desenvolvimento
sócio - político nas comunidades e criar
uma mentalidade solídária , impensável para emissoras comercias que estão
voltadas exclusivamente para o lucro. O pior de tudo isso é que o governo, a
ANATEL e mesmo a Polícia Federal são indulgentes com as emissoras evangélicas, conhecidas
promotoras do ódio religioso e do fundamentalismo em clara violação a liberdade
religiosa prevista na constituição.
Esse quadro se torna mais sombrio
quando agrupamentos que se arrogam como “revolucionários” subestimam a
relevância do uso da mídia como forma de combater a ordem vigente, normalmente
sob o argumento que os equipamentos de rádio e T.V. são muito caros, e,
portanto, inviáveis para servirem de ferramenta para a militância. Tal
argumento é muito pouco consistente, pois se há o compromisso com a dita
“revolução permanente”, devem lembrar que ela só se materializa através de ações
contra – hegemônicas.
Assim, essas organizações de uma forma geral são omissas perante as
arbitrariedades da ANATEL, não tem como bandeira a luta a democratização dos
meios de comunicação, não vem levando nenhum debate relevante sobre a entrada
da T.V. digital e sequer acenam com alguma mobilização para a intervenção da sociedade
na decantada TV pública, ou melhor, a nova TV Brasil. O seu pensamento
retrogrado é de tal ordem que insistem em se restringir a mídia impressa de
pouco alcance ,atingindo somente um poucos e disciplinados militantes, enquanto
as grandes redes de rádio e TV veiculam a sua “verdade” para uma população sem
esperança.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
O DIA EM QUE A METRÓPOLE TENTA RECONQUISTAR A FREGUESIA
O PT é sensacional mesmo. E hoje escreve mais um capítulo dessa novela hamletiana-rocambolesca de ter ou não candidatura própria.
O maior e mais organizado partido da América latina é o único em que exige em suas fileiras cabras-macho ou severinas. As disputas internas entre suas tendências são verdadeiras aulas de política. Às vezes irrita, mas o saldo é positivo.
Recentemente escrevi em meu blog que a imposição da metrópole (diretório do Rio) em forçar goela-abaixo a candidatura do deputado Palmares aos caboquim da freguesia de São Gonçalo do Amarante seria um tiro de garrucha no pé. Dito e feito. A rebelião na colônia (diretório de SG) foi imediata e favoreceu uma união inusitada entre os nativos mais ilustres do PT gonçalense: os vereadores Marlos e Miguel Moraes que, juntos, articularam o grito de independência frente à monarquia da Casa dos Lindinhos.
Marlos não fugiu à luta e, às margens do Rio Imboaçú, bradou: Independência ou Pijama! chamando Palmares para o campo aberto da disputa. O diretório dessas bandas mudou a sua orientação a favor de Palmares para seguir junto com o PDT, como queria Marlos e Miguel.
Na ocasião, Marlos ameaçou não concorrer à reeleição caso o diretório municipal se submetesse às ordens da Capital da Província. “O PT deve ser construído pela vontade das bases locais e não pelo revanchismo mesquinho de uma minoria derrotada nos debates internos do partido”, encerra Marlos.
![]() |
| Independência ou Pijama |
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
A PROFESSORA E EU
Caríssimo leitor. Tenho comigo algumas maledicências que roço ao ouvido desde que nossa honorável prefeita falou à radio de ondas curtas pertencente ao maior conglomerado de comunicação do país.
Há pouco disse, abaixo, numa dessas peças caboquianas deste escriba, que ouço vozes.
Sim. VOZES. Essa coisa de doido.
Dessa vez não. Era bem real a mesa de madeira e a cerveja cara. Ali, eu [se vê] e essa praga de gente que só faz pergunta óbvia pra resposta difícil.
Deves saber: pergunta de criança. A pior das perguntas.
_ Aparecida é uma anta - esbraveja já sem paciência o amigo.
O amigo em questão se referia ao palavrório do Canázio na Globo AM. Eu nada disse.
Antes veio à cabeça a professora.
Maria Aparecida Panisset foi minha professora.
Não vejo a prefeita. Vejo a minha professora Maria Aparecida. Assim como o giz que a irritava marcava o seu nome na lousa com a história que o Estado, através da escola, nos obrigava a conhecer.
Nos odiávamos mutuamente. É, ela e eu.
[Claro, esqueci! (...): Colégio Paraíso. 1987. 5ª Série]
A professora Maria Aparecida não tinha muita paciência comigo. Invariavelmente era expulso da classe por ela. Isso era uma espécie de provação-limite; a exposição pedagógica à vergonha e à culpa. Punição máxima que, hoje tenho certeza, se aproxima a uma espécie de sadismo dos inocentes.
A professora de História Maria Aparecida não era intelectual. Não. Se trouxesse consigo tal dote ali, nos anos 80, fumaria maconha, ouviria roquenrol e seria de esquerda.
Mesmo hoje, olhando para trás, e sabendo de sua trajetória que é simplesmente espetacular, não consigo saber exatamente quem era aquela professora. O que vem à mente é uma mulher com forte e inabalável convicção moral e de valores. Carregava já um messianismo retórico latente.
Sei porque fui sua tábua rasa. Eu sou testemunha da sua força - quase obsessão -, perseverança, empenho e convicção em me fazer odiar história.
Como disse acima, nos odiávamos mutuamente.
Lembro da pergunta do amigo que originou essas divagações. Delas não fujo, e faça saber agora: Aparecida Panisset é uma melodia que é a própria transcendência de São Gonçalo. O seu moralismo e messianismo professoral eram a luva que este caldo de cultura borbulhante do pentecostalismo nativo precisava.
Graça "macumbeira" num jornal apócrifo foi o último ato da ciência política levada ao extremo no Brasil. Foi a bolinha de papel que deu certo. Isso é apenas um parêntese, leitor...
Aparecida Panisset é a figura política mais importante de toda a história da cidade ao lado de Joaquim Lavoura. E digo: ela quer o estado. Essa entrevista é sua avant première na política fluminense com a armadura de um governo bem avaliado. Governo de uma cidade que é fundamental em qualquer eleição.
A entrevista? Bola para a professora a meia-altura que pegou de voleio e fez de placa. Talvez escorregara na própria ignorância quando deu a entender que a linha 02 Circular era concessão estadual não tendo a prefeitura nada a ver com o martírio dos usuários dos ônibus da empresa Estrela.
Parece a mim Canázio bobão. Ficou feio à beça ao Canázio paladino do povo gonçalense escancarar ignorância e preconceito, frases prontas achando que meu amigo não vá perceber o circo:
_ Helcio, esses caras tão pouco se lixando pra gente. Que merda é essa? Essa cidade não tem plano de desenvolvimento urbano próprio. Parece que São Gonçalo existe por osmose...
É...., continua.
Há pouco disse, abaixo, numa dessas peças caboquianas deste escriba, que ouço vozes.
Sim. VOZES. Essa coisa de doido.
Dessa vez não. Era bem real a mesa de madeira e a cerveja cara. Ali, eu [se vê] e essa praga de gente que só faz pergunta óbvia pra resposta difícil.
Deves saber: pergunta de criança. A pior das perguntas.
_ Aparecida é uma anta - esbraveja já sem paciência o amigo.
O amigo em questão se referia ao palavrório do Canázio na Globo AM. Eu nada disse.
Antes veio à cabeça a professora.
Maria Aparecida Panisset foi minha professora.
Não vejo a prefeita. Vejo a minha professora Maria Aparecida. Assim como o giz que a irritava marcava o seu nome na lousa com a história que o Estado, através da escola, nos obrigava a conhecer.
Nos odiávamos mutuamente. É, ela e eu.
[Claro, esqueci! (...): Colégio Paraíso. 1987. 5ª Série]
A professora Maria Aparecida não tinha muita paciência comigo. Invariavelmente era expulso da classe por ela. Isso era uma espécie de provação-limite; a exposição pedagógica à vergonha e à culpa. Punição máxima que, hoje tenho certeza, se aproxima a uma espécie de sadismo dos inocentes.
A professora de História Maria Aparecida não era intelectual. Não. Se trouxesse consigo tal dote ali, nos anos 80, fumaria maconha, ouviria roquenrol e seria de esquerda.
Mesmo hoje, olhando para trás, e sabendo de sua trajetória que é simplesmente espetacular, não consigo saber exatamente quem era aquela professora. O que vem à mente é uma mulher com forte e inabalável convicção moral e de valores. Carregava já um messianismo retórico latente.
Sei porque fui sua tábua rasa. Eu sou testemunha da sua força - quase obsessão -, perseverança, empenho e convicção em me fazer odiar história.
Como disse acima, nos odiávamos mutuamente.
Lembro da pergunta do amigo que originou essas divagações. Delas não fujo, e faça saber agora: Aparecida Panisset é uma melodia que é a própria transcendência de São Gonçalo. O seu moralismo e messianismo professoral eram a luva que este caldo de cultura borbulhante do pentecostalismo nativo precisava.
Graça "macumbeira" num jornal apócrifo foi o último ato da ciência política levada ao extremo no Brasil. Foi a bolinha de papel que deu certo. Isso é apenas um parêntese, leitor...
Aparecida Panisset é a figura política mais importante de toda a história da cidade ao lado de Joaquim Lavoura. E digo: ela quer o estado. Essa entrevista é sua avant première na política fluminense com a armadura de um governo bem avaliado. Governo de uma cidade que é fundamental em qualquer eleição.
A entrevista? Bola para a professora a meia-altura que pegou de voleio e fez de placa. Talvez escorregara na própria ignorância quando deu a entender que a linha 02 Circular era concessão estadual não tendo a prefeitura nada a ver com o martírio dos usuários dos ônibus da empresa Estrela.
Parece a mim Canázio bobão. Ficou feio à beça ao Canázio paladino do povo gonçalense escancarar ignorância e preconceito, frases prontas achando que meu amigo não vá perceber o circo:
_ Helcio, esses caras tão pouco se lixando pra gente. Que merda é essa? Essa cidade não tem plano de desenvolvimento urbano próprio. Parece que São Gonçalo existe por osmose...
É...., continua.
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